O mais cobiçado prêmio do cinema é o Oscar. Na literatura, o topo máximo que se pode atingir é o Nobel.Será que já houve quem conseguiu ser coroado por estas duas glórias?
Houve sim. Em 1939, assinando o roteiro de adaptação de sua própria peça de teatro, o irlandês Bernard Shaw, que já havia recebido o prêmio da Academia Sueca, também foi agraciado por outra Academia, a de Hollywood, pelo seu trabalho em Pigmaleão, de 1939.
O russo Boris Pasternak, prêmio Nobel da Literatura em 1958, e falecido dois anos depois, não chegou a ver que o seu romance Doutor Jivago, numa adaptação de 1966 de David Lean, recebeu 5 Oscar entre os quais o de melhor roteiro adaptado para Robert Bolt.
Há casos muito curiosos de escritores galardoados com o prêmio Nobel de Literatura que trabalharam como roteiristas de cinema e que nunca ganharam Oscar nenhum. William Faulkner, ganhador do Nobel de 1949, malgrado ter escrito roteiros cinematográficos, o mais perto que chegou da festa de Hollywood foi em 2004, quando o filme Two Soldiers, de Aaron Schneider, levou o prêmio de Melhor Curta.
Mas 'mister' Faulkner não está sozinho. O inglês Harold Pinter teve até uma sorte melhor. Prêmio Nobel de Literatura em 2005, foi indicado duas vezes ao Oscar como roteirista: em A Mulher do Tenente Francês, de 1981, e por Betrayal, de 1983. Outro Nobel , esse de 1962, que também ficou só na lista de indicados foi o escritor americano John Steinbeck. Concorreu ao Oscar três vezes: “Viva Zapata!”, 1953; A Medal for Bemny, de 1946; e A Lifeboat, de 1945 – dirigido por Hitchcok, que perdeu para Billy Wilder que levou o prêmio pelo trabalho em Farrapo Humano.
Para encerrar, outra curiosidade. Neruda, Nobel chileno, foi personagem no filme O Carteiro e o Poeta, 1994, dirigido por Michael Radford. A produção, indicada em 5 categorias, venceu apenas como Melhor Canção.
Eu jamais saberei qual céu te explica. Qual pincel te inventou. Nem sei as luzes, ou a noite obscura. A simetria onde a beleza inaugurou um número.
Oh, madona do mal. És mel que emigra às cegueiras do sol. O claro e escuro do não dito. O eterno retorno em galerias. Onde o mundo foi verbo e hoje é teu útero.
O que aconteceria se, por exemplo, o mordomo Alfred morasse em um bairro que fosse barra pesada e que tivesse de se inspirar no patrão – não Bruce, mas Batmam?
É mais ou menos isso o que acontece em Harry Brown (2009, direção de Daniel Barber) Mentira. Só que ter o empregado do Homem Morcego, sir Michael Caine, protagonizando essa estória de um marine aposentado, setentão, tendo de fazer justiça com as próprias mãos em um lugar em que a justiça é falha, lembra muito - lembra demais até!- a HQ Batmam Cavaleiro das Trevas em que o herói tem de sair da aposentaria para enfrentar seus demônios.
Eastwood explorou esse filão, do veterano que volta à ativa, ‘n’ vezes em filmes bons e outros nem tanto.
Só que Eastwood, mesmo octogenário, ainda exibe uma silhueta atlética. Mr Caine parece um "velhinho de teatro de revista" (a expressão, ótima por sinal, roubei de Paulo Francis). Tem um momento de perseguição a um dos moleques da cracolândia em que - li-te-ral-men-te o velhinho não consegue correr.
Nada que mude a vida de ninguém, mas um filme com um ator classudo.
Não fui, como sempre faço, em busca de mais informações para ver Ilha do Medo.
Por que não?
Ora, era um Scorsese.
Ele está num patamar acima. É um dos maiores cineastas vivos. Ponto.
Tinha outro detalhe que me fez, digamos, ir às cegas ao cinema.
Denis Lehane.
O filme é baseado em um livro dele. Em suas credenciais, o moço conta com uma outra obra sua adaptada, Sobre Meninos e Lobos, dirigida por Eastwood.
Eu tinha ideia, vaga é bom dizer, do que se tratava o filme.
Tal não foi minha surpresa quando Di Caprio, passo após passo, ouve uma voz que vem por trás de uma poltrona iluminada por uma lareira.
O rosto me era familiar. Era como se eu encontrasse com um velho conhecido que há tempos não via. A pergunta me queimando a língua. Até que, sim, eu descobri e não consegui esconder o grito de felicidade.
Meu Deus, é Max Von Sidow!
Sim, era ele. Era como se Bergman continuasse vivo. Era a primeira vez que eu via Von Sidow em tela grande. O cara que interpretou o cavaleiro medieval em Sétimo Selo; o pintor atormentado em A Hora do Lobo.(veja aqui várias aparições dele em filmes de Bergman)
vou retornar ao tema respondendo os comentários que foram feitos abaixo sobre a questão da crítica. Pode até parecer chuva em piscina, mas lembro que Paulo Francis, o crítico de teatro, exerceu essa função durante seis anos escrevendo diariamente, foram 1 300 e poucos artigos, dos quais 62 foram sobre a própria crítica, ou seja, dá uma média de 10 por ano, quase um por mês, então, nada demais refletir sobre isso, sobre a crítica. Abaixo colo os seis comentários que recebi sobre o post anterior e minhas respostas.
[Leandro] [leandro_braulio@yahoo.com.br] Só para constar: Astier, admiro tuas habilidades como crítico. Isso porque vejo aqui na uepb os carinhas e as mocinhas que fazem mestrado - o pomposo Mestrado em Literatura e Intercullturalidade- sairem da biblioteca com uns 6 livros em baixo do braço dizendo que tem de fazer um artigo de 15 paginas e tudo mais... e pra quê? Destroem as estórias recheando-as de "fundamentação teórica" pra no final gente como eu, que não é "leitor profeciente" não entender nada com nada. Assim, às vezes, dou razão a caras como o sr. Meireles.
Leandro,meu caro, tudo em paz? Fazia tempo que a gente não se falava, não é? Tenho a impressão de que não te respondi a um email que você me mandou... espero que você me perdoe. Mas, indo ao tema, esse pessoal aí não é crítico, é ensaísta, que não tem 'obrigação' de estar acompanhando o que é lançado, conheço bem a empáfia "desse povo", mas creio que Fernando Meireles se referia não a este tipo de "crítico", mas aos que estão em jornal, em revista, a quem a academia gentilmente chaa de "os apressados"
10/04/2009 20:39 [Aline Oliveira] [http://meucabelomarrom.zip.net] Eu acho alguns críticos uns chatos, que querem ver apenas o que querem ver - e pronto. Mas também acho chatos estes/as caras (escritores/as, diretores/as, atores/izes, poetas/isas) que acham que todo mundo tem que achar o que fazem a coisa mais linda do mundo - só porque são cheios de significados que apenas ele/a compreende. Às favas. Arte que não quer se criticada deve ficar no ateliê. Se sai de lá, dê a cara à tapa, amigo, e aguente as consequências. Né não?
Olá, noiva, fazia tempo q vc não aparecia por aqui, não é, que bom! o cara não quer ser criticado, mas está colocando a obra à venda, cobrando ingresso de quem quiser assistí-la
08/04/2009 11:55 [erika riedel] [http://terceirosinal.zip.net] pra variar, você acertou em cheio poeta! a gente ouve cada uma, né? rs... beijão cheio de saudades!!!
Oi Érika falei tanto em ti pra turma, saudade imensa, das grandes. Beijão e espero que a gente se encontre em breve!!!
06/04/2009 18:29 [Aninha Santos] É, eu também esperei o comentário sobre cada uma das peças, principalmente porque algumas pessoas -- eu por exemplo -- escolhem as peças a partir das críticas. Normalmente, como não posso ver tudo, eu escolho o que os críticos que gosto e considero verdadeiros críticos classificam como bom ou mediano, e vejo também o que os críticos paspalhões classificam como ruim. Essas são as minhas prioridades... Ah, e só par aconstar você está entre os críticos bons, chato, mas bom! kkkkkkkkkk Beijos
Bom, brigado por estar no time dos bons :-)))) qto aos comentários eles virão já já, viu, pode esperar que em breve terei mais notícias!
04/04/2009 12:48 [Tiago Germano] [tdgermano@gmail.com] [www.quaseumguia.blogspot.com] e eu esperando você fazer um ranking.
Tiagão,não gosto de validar muito essa competição velada que pode existir em festival, acredito que o parâmetro pra arte tem de ser outro, enfim, acho meio cretino top 5 de melhores peças, enfim... Mas, devo escrever mais sobre Curitiba em breve.
03/04/2009 13:28 [Emilliano Freitas] e eu esperando vc falar das decepções... o leitor gosta é de ver o circo pegar fogo. abç
Vou falar já já delas, Primo. E se o circo pega fogo é sujeito o palhaço se queimar.
dia desses, não lembro onde, li uma entrevista do Fernando Meireles. Não sei a propósito de quê, mas o cineasta começou a falar dos críticos. Disse que para fazer o seu Ensaio sobre a Cegueira passou dois anos debruçado no projeto, mergulhando em um universo. Pesquisando, estudando, vivendo tudo aquilo. Depois de todo esse esforço, chega um crítico em duas horas e destrói todo o seu trabalho, não consegue perceber detalhes, não entende alguns sentidos presentes na obra.
Engraçado, né? Ou seja, o crítico é o sujeito que em dois anos, fica em casa esperando o filme do sr. Meireles ficar pronto e após duas horas apenas se dá ao direito de dizer o que pensa. Acho que um exercício, mínimo que seja, de pensar a atividade do outro, levaria a crença do que é que um crítico faz em dois anos. Em dois anos quantos filmes assiste um crítico de cinema? Estéticas das mais variadas, lançamentos, filmes comentados, coisas do mercado... quem está no batente é obrigado a ver tudo isso. Se pensarmos em críticos que cobrem festivais, a situação piora, festival é uma loucura - voltarei ao tema logo mais.
Enquanto Meireles aprofunda-se integralmente em sua obra por dois anos - não tem a obrigação de assistir a tudo que está em cartaz, deve ter tempo de ver um ou outro filme, o crítico - não vamos entrar nem no juízo de valor de classificá-lo de bom ou ruim, mas o crítico da ativa, deve ter assistido no mínimo 500 filmes.
Semana passada terminou o Festival de Curitiba. Vi 31 peças. Muita coisa fraca, algumas peças interessantes e, pra quê esconder, algumas decepções também. Segue abaixo a lista do que eu vi:
MOSTRA OFICIAL (12 peças)
Oceano (Parlapatões/Pia Fraus) Calígula (Gabriel Villela/Thiago Lacerda) O amante de lady chatterley (Rubens Ewald Filho/ Os Satyros) Inveja dos Anjos (Armazém, RJ) A Mulher que escreveu a bíblia (RJ)
Auto peças (cia dos atores, RJ): Esta propriedade está condenada; Apropriação; Bate Man; Talvez.
Lesados (Bagaceira, CE) Tá namorando, tá namorando (Bagaceira, CE) Sin sangre (cine teatro, Chile)
FRINGE (19 peças)
A Caravana da Ilusão (Sandro Lucose/MS) Demostrativo para simples conferência (SP) O Santo e a Porca (Edmilson Suassuna, SE) Complexo sistema de enfraquecimento humano (Ruy Filho, SP) Déjà Vu (Antonio Deol, PB) Árvores Abatidas ou para Luís Melo (Marcos Damaceno, PR) A Ronda (Alessandra Vanucci, RJ) O Beijo (PR) Fala comigo como a chuva (MG) Kimpa vita, a profetisa ardente (Angola) Self service : Psicodrops (PR) Uma pilha de pratos na cozinha (SP) Além da mágica (SP) As Ruas de Bagdá ou Aranha Marrom não usa Roberto Carlos (PR) Delicadas embalagens (PR) Fio invisível da minha cabeça (PE) Tropeço (PR)
Umberto Eco disse que Paulo Coelho escrevia para os que creem. Quem não consegue crer, essa é a premissa do autor de O nome da rosa não minha, sente dificuldades de acreditar na literatura do escritor brasileiro. Mas toda obra de arte não exige de nós um pouco de fé, de alguma maneira? Uso o termo "fé" na falta de um mais apropriado ou pra justificar a citação do início do texto.
A dramaturgia de Inveja dos Anjos exige de nós um pacto de fé. E como todo pacto é possível encontrar lacunas e arestas. A questão, pra mim, não é encontrá-las, elas estão a nu, mas o que fazer com elas? Duas posturas, as possíveis. Reafirmar o pacto ou quebrá-lo.
Quando assisti ao espetáculo da companhia Armazém preferi reafirmar o pacto, mas como sou um sujeito de pouca fé, não pude ficar de olhos bem fechados e me incomodar em alguns momentos, mesmo tendo aceito a chave mágica, a clave poética que os demais elementos de encenação contribuiram para que eu embarcasse. Falarei sobre isso depois, sobre os demais elementos cênicos.
A dupla Paulo de Morais, encenador, e Maurício Arruda Mendonça, dramaturgo, assinam o texto do espetáculo Inveja dos Anjos. Não conheço a realidade de trabalho do grupo, no que tange composição do texto. Porém, como esse não é o primeiro trabalho da dupla, imagino que compete ao Paulo de Morais as costuras das cenas. Neste sentido há um quê de edição que lembra muito a narrativa clássica e depurada do melhor cinema de Hollywood. O que toca de literário, ainda é especulação minha, deve ficar a cargo de Maurício Arruda Mendonça.
Fusões, agilidade em cena, tudo isto associado à poesia. Difícil imaginar um resultado desse com uma peça feita de gaveta. O texto vai até o limite do piegas. Escorrega sim, aqui e ali, num ou noutro discurso; sabe quando o texto fica acima e além da encenação, decalcando-se como organismo de vida própria? Acho que houve um monólogo do mágico ladrão em que isso ficou mais esplícito.
As profissões dos personagens foi escolhida de modo significativo. Um escritor frustrado, dono de uma loja de livros usados, vive idealizando a vida, quer fazer um ritual de incineração de sua memória. A cerimônia é quebrada quando a vida real ruge diante dele, quando aparece uma filha que ele não conhecia, uma menina de 9 anos. O personagem desmonta-se em sua covardia e nós ganhamos em complexidade para a trama.
Por mais entrosada que seja a dupla dá pra ver as sobras - são duas vozes que se combinam. Há momentos em que as duas vozes seguem por caminhos opostos, causando ruídos e também afinando-se.
receita para fazer uma peça do Fringe ou Lehmann deveria ter dito: crianças, não façam isso no palco
1. não se preocupe com o que a sua peça queria dizer ou sobre o quê venha ser seu espetáculo. Afinal, a obra é aberta, némsm?, deixe que o público formule: sentido, entendimento, dramaturgia, para isso é fundamental cenas aleatórias, às vezes repetições.
2. Baby, um cenariozinho pop é chic no último, viu? Referências a desenho animado, programa da Xuxa, guerra do Vietnã, Beatles, misture tudo num liquidificador colaborativo e fica frio e seguro, você tá na moda, fechando.
3. Atenção diretor, interfira na cena. Mas faça isso durante a apresentação. Sabe o que tá sendo uma tendência forte? Um microfone. é: um microfone. No meio da cena mande o ator fazer a rubrica direito ou mande-o refazer.
4. Citações em francês, até falas, diálogos inteiros, são suuuuper recomendáveis. Há os que prefiram alemão, esses são minoritários, o velho e surrado gromelô de guerra cai bem ainda, agora música tem que ser ou francesa sussurrada ou uma em inglês. No caso de se preferir uma canção em inglês todo o maior cuidado do mundo pra ser uma canção que ninguém conheça de um grupo obscuro. Sim, já ia esquecendo, falar em inglês também tá valendo. Ficar sem dizer alguma coisa em língua estrangeira, boff, é ficar pra trás, tá?
5. Pegue uma cena, rascunhe de modo bem bruto, com o corpo, com sentido aleatório e depois traga essa cena de volta num contexto que a plateia diga: óóóóóóóóóó´
6. Constate, divulgue, amplifique a falência do dramático com a excelente vantagem de não ter de investigar, sugerir, propor alternativas.
Antes de falar sobre a encenação do grupo Armazém, Inveja dos Anjos, devo dizer o que o espetáculo do Paulo de Morais me fez lembrar. Os anjos têm inveja de nós, seres humanos. Está na Bíblia, diz algo a respeito do cuidado de Deus. Não me lembro, nem tenho como pesquisar agora. Minha memória também falha na lembrança do filme Asas do desejo, do alemão Wim Wenders. Conta a história de um anjo que abre mão da eternidade ao se apaixonar por uma artista de circo. E um filme muito poético. O anjo cai. Na queda perde o infinito. Torna-se um ser para a morte. Também é de memória que eu cito o poema 6 da série “A Queda” do livro “Balada do Cárcere” do poeta Bruno Tolentino que mostra, justamente, esse momento de transição em que o anjo opta pela precariedade e pela morte. Lembro só da primeira estrofe: “ali a rosa afoga a fantasia\ no violento rubor de uma alvorada\ estonteante. Dá-se a revoada\ e vai se enchendo o céu de hemorragia”. Por que inverter esse signo? Paulo de Morais nos põe essa questão embora o tema não apareça de modo explícito. Antes, percorre o subterrâneo das entrelinhas. O que faz um anjo sentir inveja dos homens? Creio que, por meio do poema e do filme citados, a sensação de experimentar o fim. Mais do que isso: de perceber a eternidade no que é finito. Mas e ter inveja dos anjos? As personagens com suas histórias que se entrelaçam e se distanciam (desculpa não tô nem um pouco afim de contar sinopse, google tá aí pra isso, por isso que resolvi escrever essas elucubrações no blog, pra, tipo, escrever pra mim) têm suas fagulhas de eternidade acesas e sopradas. Isso foi o que me tocou no espetáculo. Flagrar o milagre no miúdo daquele cotidiano, daquela cidade perdida na beira da linha do trem. Da estátua do Anjo de pedra cujas asas, no final do espetáculo, serão recolocadas. Deus está nas pequenas coisas. Eu também tenho inveja dos anjos.